Cantiga satírica - Interpretação com gabarito (Trovadorismo)

Durante a Idade Média, a concepção de mundo era essencialmente teocêntrica, isto é, Deus era o centro do mundo. A Igreja, nesse momento, tinha uma importância fundamental na vida das pessoas e toda produção e recepção das artes estava relacionada a ela. 

Como poucos tinham acesso à leitura, à escrita, à cultura letrada e às artes em geral, era no espaço das igrejas que as pessoas podiam conhecer as manifestações da pintura, da música e da arquitetura. As representações teatrais também eram feitas na parte externa da igreja em datas religiosas, como a Sexta-Feira Santa, com enorme participação popular. Apesar de as missas serem celebradas em latim, também era nesses atos que as pessoas podiam ter acesso a textos bíblicos e contato com a moral cristã.

D. Pedro, Conde de Portugal

Também chamado de Conde de Barcelos, D. Pedro era filho bastardo de D. Dinis, rei de Portugal e célebre trovador, e viveu entre os séculos XIII e XIV. Compôs cantigas de amor, mas são as cantigas satíricas que se destacam em suas composições trovadorescas.

Na cantiga satírica a seguir, D. Pedro, Conde de Portugal, se refere a uma freira que se chamava Mor Martins Camela e a um rabi (líder religioso de comunidade judaica) que tinha o sobrenome Bodalho.

Natura das animalhas
que son dũa semelhança
é de fazeren criança,
mais des que son fodimalhas.
Vej’ora estranho talho
qual nunca cuidei que visse:
que emprenhass’ e parisse
a camela do bodalho.

As que son dũa natura
juntan-s’ a certas sazões
e fazen sas criações;
mais vejo já criatura
ond’eu non cuidei veê-la;
e poren me maravilho
de bodalho fazer filho,
per natura, na camela.

As que son, per natureza,
corpos dũa parecença
juntan-s’ e fazen nacença, —
esto é sa dereiteza:
mais non coidei en mia vida
que camela se juntasse
con bodalh’ (e) emprenhasse
(e) demais seer d’el parida.

É próprio dos animais
que da mesma espécie são
fazer filhos: para a função
têm órgãos naturais.
Mas vejo eu um caso raro
o qual não cuidei que visse:
que emprenhasse e que parisse
a camela do bodalho.

Os de idêntica natura
juntam-se em certos momentos
para engendrar seus rebentos;
mais eis que uma criatura
vejo onde não cuidei vê-la
e com tal me maravilho:
Bodalho fazer um filho
naturalmente a camela.

Esses a que a natureza
deu igual conformação
unem-se e nessa união
fazem filhos com justeza.
Mas não vi em minha vida
camela que se juntasse
com bodalho, engravidasse
e dele fosse parida.

(D. Pedro, Conde de Portugal. In: Cantares dos trovadores galego-portugueses, cit., p. 260-1.)

GLOSSÁRIO

bodalho: porco.
cuidar: supor.
emprenhar: engravidar.

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO

1. Para criticar a relação amorosa da freira com o rabi, o eu lírico faz, ironicamente, um jogo de palavras.

a) Em que consiste esse jogo?
b) Conclua: Na cantiga, as palavras camela e bodalho são empregadas em sentido literal ou figurado?

2. O eu lírico reitera ao longo da cantiga que a camela e o bodalho não são semelhantes por serem de espécies diferentes.

a) Com base na leitura do texto e nas informações dadas sobre a freira e o rabi, responda: Por que eles são considerados de espécies diferentes?
b) O eu lírico sugere que a relação da camela com o bodalho é um desvio da natureza. Que elementos do texto dão sustentação a essa ideia?

3. As cantigas satíricas medievais criticam comportamentos e costumes de personalidades da aristocracia ou de determinados grupos sociais e, ao fazer isso, revelam determinados valores e preconceitos da época.

a) Que críticas são feitas na cantiga de D. Pedro?
b) Que tipo de preconceito a cantiga revela?

4. Leia a explicação sobre as cantigas satíricas de escárnio e de maldizer e depois responda: A cantiga satírica de D. Pedro, Conde de Portugal é de escárnio ou de maldizer?

As cantigas satíricas de escárnio e de maldizer

Diferentemente das cantigas de amor e de amigo, as cantigas de escárnio e de maldizer não apresentam entre si diferenças tão marcantes. Voltadas para a crítica de comportamentos cotidianos (sexuais e morais, por exemplo) ou políticos, elas se diferenciam, sobretudo, pelo trabalho com a linguagem. Na cantiga de escárnio, utiliza-se uma linguagem trabalhada, rica em imagens e ambiguidades, a fim de não revelar diretamente a pessoa ou as pessoas satirizadas. Nas cantigas de maldizer, a linguagem é mais direta, agressiva, por vezes obscena, e a pessoa satirizada é geralmente identificada.

GABARITO

1. 
a)
Consiste em associar a freira e o rabi aos animais que seus sobrenomes designavam.
b) Figurado. 

2. 
a)
Porque eles são de religiões diferentes. Mor Martins Camela é uma freira e, portanto, católica; Bodalho é um rabi e, assim, judeu.

Professor: Sugerimos comentar com os alunos que, entre outras diferenças, o catolicismo e o judaísmo divergem em relação à vinda do Messias: enquanto os judeus esperam sua vinda, os católicos acreditam que ele já veio na pessoa de Jesus Cristo.

b) A camela engravida do bodalho e pare um filho, algo que constitui um “caso raro” (“estranho talho”), que não se vê na vida: “Mas não vi em minha vida / camela que se juntasse / com bodalho, engravidasse / e dele fosse parida.” (“mais non coidei en mia vida / que camela se juntasse / com bodalh’(e) emprenhasse / (e) demais seer d’el parida.”). 

3.
a)
O texto critica o comportamento da freira, que não respeita seus votos de castidade, e também o fato de ela se relacionar sexualmente com um rabi, um representante do judaísmo, religião que, na época, era rejeitada pelo catolicismo.

b) O preconceito religioso. Ao considerar pessoas de religiões diferentes como de “espécies diferentes”, o texto vincula a ideia preconceituosa de que elas não podem se relacionar.

4. Escárnio. 

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